quinta-feira, 22 de maio de 2014

Conto: Dois irmãos.


Esse conto é o primeiro que fiz, para um trabalho da escola. O tema é trabalho infantil então eu vou resumir e modificar algumas partes, mas a história geral é essa.

Tema: trabalho infantil
Personagens: Enzo e Eva
Tempo:Ano de 1970 sendo narrado por Enzo no presente



  Era uma noite quente, acordamos, eu e Eva ouvindo gritos. Nosso quarto ficava um pouco longe da porta de entrada que aparentemente não existia mais. Foi a primeira vez que tive medo de verdade. Minha irmã e eu seguimos o combinado e continuamos quietos em nossas camas, enquanto ouvíamos nossa mãe ser arrastada aos berros. Não consegui dormir, levantei apenas quando o céu estava claro, e nem sinal dos nossos pais. Éramos apenas nós dois agora, o ano era 1970.
 Nossa vida era bem comum, morávamos em uma casa afastada da cidade grande para não chamar atenção. Na época não fazíamos idéia que nossos pais eram comunistas. Mas quem se importa? Até porque quanto menos soubéssemos, melhor.
 Não conhecíamos parentes, nossos pais não tinham amigos, não frequentávamos a escola pois nossos pais viviam na clandestinidade. Resultado:Não havia para onde ir.
 Eva era muito agitada na maior parte do tempo mas andava muito calada nessa época. Então, talvez para animá-la ou para me ocupar em alguma coisa eu resolvi que deveríamos ir embora de casa, antes que viessem mais homens armados.
 Nós dois, eu com treze anos e ela com dez, fomos andando pela estradinha de terra levando uma sacola pequena para cada. Chegamos na cidade a tarde, nessa época não havia tanto movimento, mas logo fomos abordados por uma senhora idosa que nos disse:
-- Oque duas crianças como vocês fazem aqui na rua, se deviam estar na escola?
E minha irmã que era muito impulsiva falou:
-- Levaram nossos pais, procuramos um novo abrigo.
Ela não fazia idéia do erro cometido, e nem eu. A senhora disse:
--Venham então comigo. Na minha casa abrigo outras crianças nas mesmas condições que vocês.
 Não pensamos duas vezes antes de seguir aquela desconhecida. Agora percebo como éramos presas fáceis.
Chegamos em uma casa não muito distante, era grande por fora e tinha uma aparência acolhedora. Entramos sentindo no ar um clima de esperança... Que evaporou assim que  a porta foi fechada atrás de nós.
Por dentro a casa exalava um cheiro leve de mofo, havia apenas uma sala extensa, uma cozinha e um banheiro. Haviam crianças por toda parte, deviam ter entre sete e doze anos. Oque mais me assustava era a indiferença no olhar delas, tão vazio e inerte que me causava repugnância. Entramos calados e a senhora indicou um espaço vazio entre dois lençóis.
"Ela só pode estar brincando".
Mal colocamos nossas coisas no chão a porta foi aberta. Entraram três homens com armas pequenas, seguravam um papel cheio de letrinhas e praticamente esfregavam ele no rosto da mulher. Ela puxou a folha, leu alguns momentos e deu um suspiro, fazendo um gesto vago em direção a um menino que estava dormindo (morto, ou dopado).
Eles se aproximaram e um deles jogou a criança no ombro sem a mínima delicadeza. Saíram sem dizer uma palavra.
Durante o crepúsculo, nos ofereceram um copo de leite, eu recusei pois vi as crianças mais velhas fazerem o mesmo, mas Eva tomou, e logo percebi uma sonolência se apossando dela.
A noite foi calma, e na manhã seguinte quase todas as crianças foram vestidas bem cedo e levadas em um caminhão sem nenhum esclarecimento.
Sobraram, além de Eva e eu, cinco meninos que estavam ali a pouco tempo. Ao meio dia nos mandaram esperar pelo almoço e responder algumas perguntas sobre nós enquanto isso. A tarde veio outro caminhão, e dessa vez nós fomos levados.
 Chegamos em uma fazenda onde haviam cinco homens nos esperando. Nos deram fichas com números e nos colocaram em compartimentos junto com outras crianças cercados por grades.
 Acordei no dia seguinte e não encontrei Eva, ninguém sabia sobre ela, mas demos por falta de outras crianças.
 Passaram algumas horas e um homem falou:
-- Sua vez menino, vê se não dá tanto trabalho quanto sua irmãzinha.
-- Viu Eva?
-- Com certeza, e você também vai ver já.
Eles então me deram uma pá e me mandaram para um terreno cercado onde tínhamos que cavar buracos. Ficamos lá até o meio-dia. Não vi Eva.
 Na volta perguntei aos homens se ela estava por perto e eles me mandaram ficar quieto se não queria apanhar.
 Eles me mandaram para a cela, mas ainda tive tempo de ver um menino apanhando. Acho que ele também estava procurando alguém.
 Passamos cerca de quatro dias trancados. Eva não apareceu, eu não podia fazer nada porque já tinha visto outras crianças apanhando.
 No quinto dia uma moça jovem chegou para nós e falou:
-- Meus parabéns rapazes. Vocês irão para São Paulo.
Então eu percebi que agora só haviam rapazes na cela. Nenhuma menina.
Nos doparam a noite e levaram a gente se que ninguém visse. Quando vimos estávamos em um outro caminhão, indo em direção a uma delegacia.
Eva estava lá, do meu lado.
 Dois policiais nos tiraram de dentro do caminhão e levaram para dentro. Cuspiam na gente, chutavam e beliscavam. Após algum tempo um homem chamado Tibiriçá nos mostrou duas fotos, mãe e pai. Perguntou se conhecíamos. E minha irmã mais uma vez gritou impulsivamente:
-- Mamãe! E papai!
 O homem sorriu, e indicou que levassem a gente.
 Passamos por alguns lugares estranhos, ouvíamos gritos. Em seguida um homem falou "só aqui no DOPS" , e nos deu umas plaquinhas. Tiramos fotos.
 Fomos levados a um lugar com panelas que eu identifiquei como uma cozinha. Era uma imundice enorme. Tudo coberto de gordura, cigarros velhos e fósforos. Uma mulher nua varria o chão enquanto um homem falava em seu ouvido qualquer coisa bem desagradável.
 Em seguida nos deram vassouras e mandaram que varrêssemos. Eva estava exausta e se sentou por um momento. Eu ia dizer "Levante-se!" mas foi tarde demais.
 O homem que estava lá virou de repente e puxou com força o braço da minha irmã.
 Eu corri para perto, ele em seguida me deu um tapa que me fez cair. Fomos arrastados até um salão cheio de pessoas. Uma delas tinha os pulsos cortados.
 Haviam gritos por todo lado, e gemidos. Mandaram a gente de volta sem explicação, e ficaram nos empurrando pelas salas até uma com um tanque enorme de água. Nos pegaram pelos pés e mergulharam nosso rosto dentro da água fria por um minuto. Em seguida nos mandara de volta.
 Após varrermos nos fizeram limpar o chão do salão.
 A noite fomos levados a um tipo de casa onde haviam freiras. Elas cuidaram bem de nós a noite. Mas durante a manhã a rotina se repetiu.
 Passamos cerca de vinte e seis dias nisso, não podíamos demonstrar cansaço, revolta, indignação, indiferença, nem tristeza.
 Um dia nos fizeram parar de amolar facas e fomos conduzidos a uma sala com duas cadeiras.
 Lá estavam nossos pais. Um pior que o outro. Rostos ensanguentados e amarrados em cadeiras com pregos.
 Eva se assustou e começou a chorar, então tiraram ela da sala.
 Meus pais olhavam para mim de olhos arregalados, eu os encarava. Colocaram um pano na minha boca, minha mãe gritou. Eu apaguei.
 Quando acordei estava deitado em uma cama. Uma freira passava um pano molhado no rosto de Eva.
 Perguntei por meus pais, ela falou que era melhor eu voltar a dormir.
 No dia seguinte fomos mandados a um orfanato, e nossos "tios" vieram nos buscar. Eram na verdade outros comunistas que souberam de nossos pais e nos resgataram.
 Quando perguntei pela minha família eles se mantiveram calados.
 Hoje em dia Eva e eu superamos nossos traumas. Nunca mais vimos nossos pais. Tivemos uma adolescência relativamente "normal" em outro lugar, com outros nomes.
 E eu, Enzo, só posso agradecer a Deus, por ainda estar vivo.

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